domingo, 7 de maio de 2017

gravidade e vir-a-ser






























Enquanto greves gerais estouram
E são atacados indígenas, imigrantes...
A gravidade me atinge
A gravidez
Eu
Esfinge
Ouço o tempo a construir
Esse tudo o que há de vir

Com alguns órgãos comprimidos
Olhos deprimidos
Cérebro e pele expandidos
Enquanto o rapaz se recupera
Do tiro que lhe tirou a vitalidade
Os engravatados incitam guerras
Revigoram ditaduras
Mas que duras realidades!

Me dói cada vida dessa
Que se esgueira por abismos nefastos
Descritas nos noticiários
Como se num frio jogo de video-game
Existências se desfazem
Destroem-se possibilidades
Inventam-se mais caminhos de improbidade

Enquanto, em meio e sendo também isso
Esse caldeirão que me tornei
Com as poções devidas para gerar gente
Me transformou em um num sei quê
Que me faz enxergar mais

Enquanto alguém me deseja mal
Eu nem bem sei o que desejo
Sinto Cecília mexer, virar, empurrar
E mexe tudo nesse país que eu sou

Coisas jamais retornarão para o lugar de antes
Onde era esse antes, onde será esse depois?
Me sinto mais que nunca conectada a alguma coisa abstrata e disforme
Que me joga na bruteza do que é estar em vida
Vida delicada e densa vida
Se desdobra em múltiplas dimensões infindas

De quem seremos ancestrais menina Ceci?
A quem estamos antecedendo?
Que planeta é esse que virá?
Que planeta é esse que agora está?
Haverá esperança no teu tempo de mulher?
Será que vamos conseguir?
Será mesmo belo esse porvir?

Tenho me olhado com olhos fixos
Encarado muito mais que três segundos
E é tudo mais confuso quando se enxerga bem o que tem dentro
Como não chorar nesse mundo que tanto magoa?
Como não transbordar se esse tudo só sabe encher?
Quantas margens hão de espremer
O rio caudaloso que sinto que sou?
Hoje, perene ainda
Será que um dia
Olharei e direi: “secou”?

Entre águas e labaredas
Me molho, me chamo
Me olho e me vou
Há saudades aqui
Saudades de um porvir
Enquanto explodem no peito, vias lácteas
Rasgam!
Abrem caminhos, criam sinapses, formam nebulosas.
Quantos universos caberão
Depois das linhas de horizontes que pós junho virão?
Quantidade é uma coisa inventada pela humanidade
Só pra provar que o infinito não cabe em nossa capacidade
[De pensar]

Enquanto milhões sofrem ataques
Sobrevivo entre câimbras e espasmos
E me perco em tanta coisa de doer
Desculpa a cafeína, meu bebê
Desculpa o cortisol
É que toda hora esqueço que meu coração é o sol
Do que te ofereço, te peço
Pega só o que lhe convir
O resto deixes pelo sangue
Fluir, fluvir
Ainda fluvial e pequena pessoa
Te ajeita por aí
Que vêm chegando esses outros dias
Muito parecidos com estes, é verdade
Mas nesses outros, a gente já vai existir
E em cada “a gente” que surge
Surgem muitas canções
Muitas danças, mudanças
Outros mundos nesse mesmo que há

Em junho a gente nasce!
Sim, em meio a muitas mortes
Mas, tranquilize, filha
Teu pequeno coração acelerado
Que é assim que a vida é.
Minha pequena, sedes forte
Pois que, além de passarinho assustado
És também guerreira, és mulher!
E és do norte!

Fora aqui é bem difícil
Mas não nos enganemos
Esse teu dentro também é fora
Só que um pouco menos
E isso te leva pra outro perto, um que é longe
Aproveites então aí
Encontra e abraça quem não está mais a errar no lado daqui
Sorria e olhe bem seus olhos
Que depois vais esquecer
Destes que te ajudaram
A este portal transcorrer
Abraça-os e ama-os
Que depois é só saudade
Inexplicáveis ausências no preenchimento do teu ser
Rostos turvos na mente, que hão de te acalmar
Quando fechares os olhos e desesperar
Se olhares direito
A eles vais enxergar, tua alma há de lembrar

Te apruma pequena
Te espero, para ensinar a voar
Espero aprender até lá
Mas acho mesmo é que juntas
Que vamos nos jogar dos galhos
De asas abertas a fim de compreender
Como funciona esse negócio de viver

Esse misto de paixão e cegueira
De fé, de canseira
De força, de fraqueza
De erro e evolução
De carne, alma e conexão
Esse misto de dor e prazer
Essa eterna sensação de ossos crescendo
De alma ardendo, dente caindo
Coração pulsando e tudo existindo
Nesse misto de mal-me-queres e bem-quereres
Vamos emanando o que não se vê
E construindo o que há de ser

Desde já, Cecília, te digo
Mesmo com todos esses perigos
De aqui ser e estar
Mesmo com toda essa vertigem
Essa náusea e mal-estar
Tudo se move
E tudo sempre se moverá
E é dentro desse tudo
Que nossas aventuras
Umas belas, outras duras
Umas leves, outras obscuras
Hão de desencadear

Marés baixas, marés altas
Tantos morreres e nasceres
Tudo pra gente crescer
Que é sabida essa correnteza cósmica
E esse tudo que ela vem trazer
Menina, vai doer!
Choraremos!
Mas é parte de estar aqui
Vamos andar, vamos cair
Nos machucar, mas também sorrir
Não te esqueças de olhar pra dentro
Que é dentro que nasce e se põe o sol
Deus é essa força que carregas no teu peito
Ela é tu, pequena deusa do arrebol

Não te esqueças também do silêncio
Senhor das perguntas e respostas
Sem ele não há como perceber
Onde está o que é importante ver e ser.
É menina, não vou te mentir
Hemos de convir
Vai mesmo doer
Te assombres mas não te preocupes
Vai ser lindo, vais ver
Este nosso pequeno grande vir-a-ser.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

haja palavra...


Da janela do taxi, sob o céu de uma manhã confusa, vi um casal de passarinhos marrons/rajados se equilibrando um sobre o outro num fio de energia. Faz tempo que não consigo traduzir o que sinto. Meus pensamentos e sentimentos vem a tona na consciência e nos poros todos de forma fragmentada, como numa edição frenética de um filme de terror, ação ou mesmo uma videoarte (sempre foi assim, mas às vezes fica mais forte, como nos últimos meses). Da janela do ônibus, sob o céu cinza de uma tarde quente e cansada, vejo alguém se embalar deitada em uma rede, em suas mãos sustentadas pelos braços esticados no ar, um neném, que naquele segundo de lá me fita e acompanha o deslizar de minha passagem pela rua. Aquele boto pequeno que outrora, através do meu tato, mostrava seu delicado dorso vez ou outra no rio amazonas de dentro de mim, aquele que eu sentia como se flutuasse sozinho em movimentos líquidos entre as noites de um céu estrelado feito de águas oceânicas, aquele que me jogava violentamente na mágica da existência só de sentir com as pontas de meus dedos que ele simplesmente estava ali... Este pequeno mamífero imbuído de sua solidão cetácea vem atravessando meses que escondem eternidades, supercordas distorcidas, quintessências, multiversos... Antes conectado muito mais aquele universo líquido mítico, espiritual habitado por seres os mais misteriosos, os quais, ocultos da paisagem visível, tinham a função de tornar aquele mundo um lugar encantado, agora muito mais presente neste aqui e neste agora, já consigo tocar sua humanidade, já me esmaga a bexiga e os pulmões seu peso. É uma Cecília! E que linda que me parece mesmo que eu nunca a tenha visto. Tenho sonhado com aglomerados de pessoas, muitos ambientes diferentes, acordo deles sempre com a sensação clara e viva de ter estado com e passado por muita gente, sem falas, nem toques, sem interação, almas passando entre si, e tem sido como se todo dia eu tivesse acabado de chegar de uma estação de metrô lotada. Acordada, o pensamento viaja entre informações aleatórias: Uma ruela de um lugar visitado em uma viagem. A sensação da água gelando a canela em alguma tarde leve de sol em qualquer lugar banhado por um rio. Um rosto. (Um não, muitos! Eles sempre vêm em minha mente aos montes, definitivamente rostos são como as vírgulas de meus pensamentos.) Um desenho que fiz em 2009. Um flash back de infância. Alguém bem próximo levou um tiro. Existem armas. O Brasil está afundando. Por que o Trump fez aquilo? O que mais estar por vir? Como vai ser o rosto dela? Um umbigo que vi numa foto. Como me toca essa "você que me continua" do Arnaldo. Bexiga parece sempre cheia. Eu já tive tantos amigos... As pessoas somem, eu sumi. (Ou nunca estive presente?) Que maravilha saber que aquele aluno vai bem na batalha que é a vida. Saudade das idas ao meio dia no trapiche e de pegar aquele vento que beijava só o meu rosto e o meu silêncio, ninguém mais entre o sol e o rio. Aquela cena que ficava passando na imaginação enquanto atravessei o Atlântico no ano passado. Os planos que eu tinha, os planos que tenho, as não certezas e as não expectativas... Pessoas... Conexões... Quem? Verde petróleo é lindo! Verde clorofila... A gente pega uma lata de euforia e mistura com três bisnagas vermelhas e duas marrons, eis o rosa Carla Antunes. "Não vou te deixar na mão, nem vou te deixar a pé, tenho um coração de mãe". Com quantos cômodos se faz um lar? Como pode tudo parecer tão claro assim? Alguém que eu não conhecia, mas cujos projetos eu acompanhava, morreu... Tão jovem, tão cheio de engajamento.... Me soou tão injusto, inacreditável em suma. As pessoas morrem! Têm muitas pessoas lutando pra viver nesse momento. Será que o Sandro vai ficar bem? E se aquele dia tivesse sido diferente? Haveria Cecília nesse meu presente? Será que um dia ela vai desejar que eu morra? Educação. Juventude. Violência. Macapá. Aquele primeiro episódio que mostra as baleias... Mais uma aluna grávida... Que dê tudo certo. "Homem de 19 anos é morto em troca de tiros com policiais" Na periferia não existe adolescência... Qual era o nome dele? Será que era meu aluno? De que matéria impregnante  são feitas as ideias fixas? Preciso terminar meu roteiro. Não posso não terminar de ler aquele livro antes dela chegar. Será que vou acabar deixando estragar a porcelana fria que comprei? Vi uma lua cheia, esplendorosa, eram 6 da manhã, e ela toda enxerida encarava o sol no lado oposto do horizonte, tudo valeu a pena. Anteontem a cachorrinha deu dois saltos para dar duas lambidinhas na minha barriga! Ela nunca tinha nem percebido que eu tinha uma barriga e de repente resolve me pegar de surpresa e dar um oi pra esse alguenzinho, foi emocionante. Pitaya é uma fruta sem gosto que eu sempre comia por causa da cor linda, nunca havia pensado em perguntar o nome, aí um dia descobri como se chama e desde então aquele roxo vivo, de tom aberto, meio cítrico, nunca saiu da minha memória e é como se fosse muito doce aquela fatia-sorriso mesmo sendo quase inexistente o sabor. Ela mexe muito quando ouço música africana. Minha missão tem um nome que se soletra exatamente como se soletra a palavra e.d.u.c.a.ç.ã.o. Será que ano que vem consigo voltar a tentar um mestrado? Será que minha dor ciática vai deixar eu carregar essa menina? Será que vai ter um jeito de eu não me sentir tão exausta como descrevem as mães? Sinto saudades, muitas. Quando será que eu viajo de novo? Como será tudo daqui a um ano? Rostos... Temer. Sempre vejo alguém lhe acertando um tiro, acho que vem de uma série que assisti, ou então existe em mim a vontade que alguém morra, mesmo sabendo de tudo isso sobre viver, como posso querer isso? Cãibras... Falta de ar. Aquele momento em que fiquei sozinha nas pedras diante do azul da Bahia de Guanabara, meu sapato da Marisa era novo, aquele homem apareceu do nada, tive medo. Cara, aquele menino morreu mesmo... Ontem isso me perturbou de madrugada. A vida tem me agoniado todo dia, de novo essa sensação de existir emaranhando tudo, muita coisa ao mesmo tempo. Ontem palestrei pra vários professores, uma imagem que sempre via desde que comecei a trabalhar com educação...  Domiciliar... "Uau! Vais ter coragem?" Sim, vamos tentar! Fugir é ilusão. Barulho me agonia muito. Olhei de novo as características de uma pessoa com autismo e dessa vez parece que tudo encaixou. Sou uma super recognizer, ao menos foi o que deu nos resultados de uns testes, partes de um estudo de que participei, da Universidade de Greenwich, pela internet. Lembro de quase 100% dos rostos que vi na vida, 90% se não me engano. Aquele texto do Ronaldo que fala da Mariana, meu deus, como amo! Foi impagável cantar "Um shopp pra distrair" com o Bradock, naquela calçada da Pe Júlio, precisamos terminar esse doc, nem pesquisei a música do cantor italiano que ele citou. Nunca falei tanto na minha vida quanto atualmente. La belle de jur. Mirtilos. Dei sorte... A sensação de rejeição foi soterrada por uma sensação colossal de aceitação, esse tanto de elogio vou ouvir até o dia de junho que Cecília vier, depois preciso tapar os ouvidos senão vira arrogância. (Ou sou eu que não sei lidar com a possibilidade de ser alguém bacana.) Vinho, ice, gengibirra... Sensações guardadas pra depois... Como se sabe que chegaram esses depois? Confiança é uma lenda? Será? Obrigada! Me desculpe. Eu te amo. Talvez hoje eu consiga fazer um desenho. Minha cabeça dói. "Quero tudo que meu olho cego de cachorro raivoso fareja", essa frase lateja na minha mente de vez em quando. Latejar... Notei agora que lateja-se tanto de dor quanto de prazer. Atrasei pro pilates. Alguém bate a porta, não abro. Como é irritante o latido das cachorrinhas aqui de casa. "A gente foi feito pra voar, no vento que bate pra gente se secar." Aumentei o volume. Fiz um spotify, mas não sei usar. Vou continuar com minha lista infinita no youtube. Que cansaço. Amo a rua de casa quando está deserta e mais ainda quando choveu e o asfalto fica com um brilho amarelado por causa do reflexo da luz amarela dos postes, e se for madrugada, o vento, o silêncio... Aaaah! "Virá! Impávido que nem Mohamed Ali". Tudo isso enquanto desacelero cada vez mais meus passos, enquanto meus peitos se rasgam (literalmente) em vias lácteas, enquanto o passado vai sumindo e o presente se arrasta... Eu espero... E vou me embolando nesses emaranhados de informações. As vezes é tanto tudo que me imobilizo. Enfim transbordei.

terça-feira, 7 de março de 2017

sobre uma mente programada para ver fantasmas




  























*Casa de brincar no quintal da Casa Senhorial, um castelo em Malmgard, Finlândia. De tudo o que vi no castelo, entre adornos de ouro, dezenas de bichos empalhados tenebrosos, pinturas, paredes e móveis seculares... O que mais me marcou foi essa casinha abandonada no quintal do lugar. Desgarrei do grupo que me acompanhava para ver de perto o que era e me deparei com uma aparente casinha de brincar... Entrei em transe vendo isso, imaginando as vidas que passaram por ali, as brincadeiras, o momento exato em que os vidros quebraram, ou que as louças foram derrubadas... Meu olhar vive a procurar o que é vida, mas não posso negar que muito me atraem os fantasmas. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Aquelas tardes fevereiras


Alguém reclama fome em mim. Passo horas entre curtires e notícias inúteis. Faço coisas das quais me arrependo no segundo seguinte. Já não consigo permanecer na mesma posição por muito tempo, e mesmo assim, como quem deseja sentir dor, por vezes permaneço. Nunca foi tão frio nestes lugares do trópico acima da linha do equador. Literalmente. Nuvens cinzas pesadas todos os dias têm visitado e coberto, primeiro ao rio amazonas e depois a toda a cidade de Macapá. Dias cinzas. Dores nas juntas. Chuva fina que escorre quase que eternamente em tudo que é aqui.

Ontem finalmente pude ser fantasma de novo e vagar pelas ruas a esmo, calada, sem encontrar ninguém que conheço, só vendo e sendo a/na cidade. Eu e a sombrinha, e o asfalto, e as pessoas sem rostos; eu e o rio, e o trapiche, e a maré enchendo; eu e o chuvisco, os bancos úmidos de concreto e as tardes fevereiras. Nós todos e estes sentimentos arvorescos que se afincam entre os becos apertados desses dias... Aquela cor de tinta que não gostei, aqueles carnavais que não vivi, aquelas músicas, aquelas vidas secretas das lágrimas notívagas, aquele desejo de criar coexistindo com aquela inércia... Coisas de quem se amofina em si nestes dias molhados e regados de sentimentos alegretes de ansiosos foliões. Jeito desencontrado de qualquer coisa, esse meu.


*Às vezes me questiono a que serve escrever essas coisas... Nunca encontro resposta. Mas também não consigo me convencer que de nada serve, por que é inevitável algum alívio ao organizar parte do que paira em mim, então isso por si, já deve bastar.

sábado, 21 de janeiro de 2017

quinquilharias ou informações aleatórias e desnecessárias sobre mim




Guardo quinquilharias. Acumulo tudo. Pensar em desapego me desespera. Mas não me refiro às poucas coisas razoavelmente caras que possuo. Meu apego se atém as minusculosidades. Tenho desde uma bolinha de gude encontrada enterrada na estrada onde ajudava na gravação de um vídeo, passando por uma coleção de cartas de baralho encontradas na rua, algumas dezenas de fitas vhs, sacolas com dezenhas de frascos vazios de desodorante, sacolas contendo outras sacolas, muitos papéis, caixas contendo miudezas infinitas... Outro dia finalmente consegui jogar fora alguns pedaços de varetinhas de bambu verde os quais estavam guardados desde o ensino médio... É, eu sei, é grave. Mas... O que não o é nessa vida? Me pergunto...

Minha família é o choro e a melancolia. Há muita solidão e lágrima nisso de que somos feitos por aqui. Nesse sangue que passamos um para o outro corre algo de triste, que não cabe na gente e transborda no suor dos dias. Ainda não tem uma imagem que me corroa tanto nessa vida quanto acompanhar o rolar pesado e salgado de lágrimas a cair pelo rosto da minha mãe. A forma como ela tenta segurar o choro tensionando os músculos do maxilar, contraindo os lábios, e quando a fala embarga e chega a hora de abrir as portas do precipício que há entre os olhos e o chão. As sombrancelhas caem sob o peso de um coração pesado. Dói ver essa cena tão repetidas vezes. Dói mais ainda não saber o que fazer...

Ontem eu senti alguém se mexer dentro de mim. Não assisti na distância da tela preta e azul. Senti com o tocar de minhas mãos. Assustadoramente mágico. Sorri e pela primeira vez consegui iniciar uma conversa, singela e tímida mas finalmente falada na segunda pessoa, me reportando diretamente a este pequenino alguém que vem vindo. Não sei o por quê, ainda não havia conseguido fazer isso. 
E afinal quem é que vem chegando nessa estação que eu sou? Será que de onde vem há mais leveza que pesar?

Inacreditável isso de existir. E parece que tudo isso nunca será sobre entender. Não sei do que se trata, só sei de perguntas. Tem um peso aqui, que parece vir de tudo o que não tenho, tudo o que não há por perto. Quem será que inventou isso de o presente sempre ser menor que o futuro? Quem inventou isso de poder inventar na cabeça o que ainda não houve nos hojes? Amanhã...  Quantos fantasmas somos capazes de aprisionar em nosso peito?

Eu sempre quis ter filhos, desde sempre, por achar as crianças tão encantadoras com suas curiosidades e formas simples de lidar com tudo. Talvez eu jamais tenha parado para pensar no processo que precede a chegada de um ser humano a este planeta. Nunca imaginei que me perturbaria tanto. Me sinto flutuando em um espaço escuro, que de tão escuro não enxergo se o que há ao redor é pequeno ou infinito. A sensação é de estar rodeada de abismos que podem ter estrelas penduradas ou não. A única coisa que vejo aqui sou eu mesma, uma espécie de espelho cujo reflexo mostra o fundo do que não se vê. E só há o fundo de mim a ser visto por aqui. Não sei o que pensar sobre isso. Sinto que há coisas pra jogar fora, mas por onde começar se tudo o que há em mim divide espaço com bugingangas as mais diversas? Pode ser que eu seja a principal tralha da qual  preciso  me desfazer... Não sei.

sábado, 7 de janeiro de 2017

o cosmo em mim



Vi uma pessoa. Alguém que se mexia. Vi mãos e pés, cabeça e barriga. Um ser, mas não qualquer, um humano. Assombro. Quer dizer então que guardo em mim o infinito? Meu corpo carrega a imensidão do lugar de onde vêm as pessoas... Quão grande é isso? Não sou capaz de medir. O que posso fazer é não entender como esse processo pode ser tão normal. Todos que aqui estamos viemos através dele. Nascer... Quantos mistérios carrega esta palavra? Como alguém pode se acostumar com um outro ser humano dentro de si? De onde veem eles antes de atravessar o portal? Antes de nos atravessar? Antes de mergulhar em uma dimensão oculta e através de um segundo ser, emergir em uma dimensão outra? Outro "aqui" e outro "agora"... Somos portais... Que loucura! Me tremo ao tentar pensar na amplitude que isso possa ter. Desde que me achastes, pequenino alguém, sou toda desnorteio, toda esplendor, toda assombro e toda amor. Encarando o cosmo em mim, olhando para os céus que se abrem em abismo e luz aqui, te aguardo com a ânsia de quem nada sabe.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Aquarela




Meu primeiro encontro com ela e já consegui chegar em lugares os quais, sem sucesso, há muito, procurava. Ao menos houve cor e leveza e o que dói doeu um pouco menos. Continuei sentindo quereres sobre estar em outros lugares que não estes aquis que me são possíveis nestes agoras. Mas teve algo de sereno que me acalentou. Bom saber que posso construir lugares assim e que eles estão dentro de mim. Isso de mexer com cores, faz ressoar umas músicas bonitas em mim... Como é maravilhoso poder contar com isso! Ainda são parcas as palavras por aqui, guerreiras no deserto "seguem o seco" e conseguem musculatura para quebrar buracos nas crostas desse num sei quê que tem me abraçado tão forte. Quero logo os amanhãs que esses hojes tem me dado febre demais, calafrios e vertigens demais. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Uma prece para o abismo do que não conheço

Quanto tempo alguém é capaz de permanecer sentado sobre as sombras de sua própria solidão? De que matéria são feitos esses dias tão pesados que passam tão l e n t o s como quem nem gostaria de passar? Quantos demônios cabem nessas horas seculares em que tudo cabe mas nada convém? Quantos anos passaram-se hoje? Quantos terão passado até junho do ano vindouro? Quantas eus passarão até lá? Pode dar à luz quem só conhece à sombra? Onde a centelha divina? Onde o eu maior? Onde fui parar que não me encontro? Entrei em coma ontem e não consigo acordar. É escuro e devagar aqui. Ouço ao longe muitas vozes. Gosto da experiência de passar o dia a ouvir o silêncio, de não traçar palavra alguma, de não produzir som nenhum, de só ser e escutar. Há tanto lá fora e eu insisto em entrar. Mais um tanto de hectares inexplorados a descobrir. Sem asas desta vez... Com todas as forças que minha pequenez pode ter, com toda a densidade que a carne do meu coração carrega e todo o sentimento que possa caber em meu útero. Eu te enxergo e te abraço, peso de tudo o que não me é conhecido. Abismo do desconhecido, não sem medo, te digo: vem!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

céu




De Caruaru à Recife

Cactus. Montanhas recortadas. Retalhos de terra e planta. Vários tons de verde e marrom.


Durante o caminho três coisas me chamaram atenção além de todo o resto:

1. Um ser de três cabeças semelhante a um cão, próximo a um peixe e um cavalo marinho, ambos gigantes com pelo menos uns dois metros de altura... Pareciam ser de concreto e ferro. Todos como que guardavam a frente de uma porteira. Uma entrada de um lugar com muro bem colorido. Um lugar no qual preciso entrar um dia. Não vou esquecer.

2. Uma casinha um pouco tombada para o lado, bem ao fundo de um terreno bem comprido e fino quase como um caminho por onde só se passa e não se mora. Acima do portão, bandeirolas de pano com cores variadas tremulavam com o vento e indicavam alguma coisa sobre existir ali uma festividade invisível de todas as tardes.

3. Um barraco quadrado na beira da estrada, feito de ripas e pedaços reaproveitados de lonas com imagens publicitárias. Não parecia ter chão, nem divisões por dentro. Havia pobreza... No meio do que parecia a entrada, pendurado em uma ripa, um boneco colorido que aparentava ser de papel machê envernizado. Sozinho, de braços abertos, ligeiramente inclinado, parecia saudar quem passava pela estrada. Sua expressão não recordo, não sei se cheguei a enxergar. Havia beleza... Sorri sozinha e retribui a saudação. Pessoa que colocou ali o boneco para velar os viajeiros, eu enxergo você. Obrigada por existir.

Parti...  Pela linda estrada... Pelos metrôs lotados de vendedores e sotaques... Pela saudade de alguma coisa que já vivi nessas terras em algum tempo que desconhecço... Feliz por ter podido voltar... Olhando distante pela cidade passando pelas janelas... Pedi: Nordeste me prometa que eu voltarei. De volta só o silêncio recebi como resposta.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

sábado, 15 de outubro de 2016

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

nadalém

De volta aos espasmos... Tenho ouvido muito a músicas tristes. "Que música de igreja é essa menina?" É que se alojou aqui uma fraqueza... Vertigem constante. Desvontade... Preguiça de tudo isso que é vida. Nada é suficiente. Tudo o que não se possui é sempre o que parece mais maravilhoso. Dormências... Concentração no oco que há, no oco que sou. Aí não consigo fingir, só consigo me ligar ao que sinto que é ligado à minha vibração ou à minha ausência de vibração. Tenho tido dificuldade de me traduzir à mim mesma. Não sai um texto que me agrade, nenhum desenho flui, nada é macio, tudo é moroso e pouco nítido. O tempo vai pesando e de repente não há mais nenhuma batida enérgica que possa sair da playlist do celular, tudo é devagar, sem pressa, quase morto, como tem sido o bombar do meu sangue. As palavras saem como uma embalagem de chiclete jogada por alguém displicentemente na rua... Frívolas, secas, solitárias e inúteis.

Entro em mim vestindo um farrapo qualquer. Olho ao redor, não tiro os sapatos, não lavo as mãos, não bebo água, não me banho. Apenas me sento na cadeira confortável da sala de estar, misturo com o café leite em pó. Me embalo como se nada mais além houvesse e pode ser que nada haja mesmo e esse "além" seja mais uma infante invenção humana. 

É a tal da primavera minguante que vez ou outra entre espasmos e dormências me amansa para além do limite saudável da mansidão. Quase paralisada, eu absorta me desconecto, ou me conecto com outras dimensões além do que é palpável no passar dos dias. Não sei... No fundo é um tremor... Um terror... Um medo... No fundo é só o fundo, o piso de areia movediça da alma crescendo... 

Termino o café e permaneço. Nenhum movimento além de toda a loucura do mundo que se move alucinada da porta pra fora. No fundo da xícara, além de meus próprios olhos, o tempo e mais nada.

"Não há nada além
Não há nada além agora aqui
Não há nada agora além daquilo que eu sou

Silêncio e som
Povoam o meu corpo
Era a pedra e eu
(...)
E o nada
Pousando em mim"

...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Rio, horizonte fluido.

O que mais me marca em viver onde vivo é poder vez ou outra lançar ao longe o olhar e receber em troca um horizonte fluido a me acarinhar e dizer que nem tudo é tão duro assim. 

Se já amo as ruas pela sensação que elas me provocam, (de pertencimento, suspensão, conexão e introspecção ao mesmo tempo) amo-as mais ainda porque algumas me levam até a linha das águas dançantes, onde o limite é ilusão e a distância é permanente. 

Se há um algo para o qual a gravidade me atrai desesperadamente, esse algo é essa cercadura de curvas circunscrita entre a terra e o céu, que de longe se mostra um portal pro infinito, um triz entre o chão e o etéreo e de perto pesa e dança, fazendo ecoar ventos que cantam e fazem dormir monstros residentes nos peitos de quem passa demasiado perto.


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

No útero abissal ecoa tua dança infinita*

“O que é aqui?” assim começou minha experiência com um espaço chamado Espaço Experimental e com o espetáculo “Cara da mãe” do Coletivo Cênico Tenda Vermelha. À deriva pelo centro histórico de Recife, um lugar me chamou atenção. Passei, voltei e indaguei. Pois bem, a resposta foi: “Vai ter um espetáculo, daqui a 20 minutos.” “Ah, que legal! De quê? Dança? Teatro?” “Não tenho certeza, mas acho que os dois...” “Quanto custa?” “20 reais”… “Obrigada”. Fiquei.

Recebemos vendas vermelhas, feitas com um tecido que mais parecia uma tela, não encobria a vista totalmente, deixava apenas sobre o olhar um filtro translucido de cor vermelha… Interessante… Aguardamos o horário na escada, começou a chover lá fora. No momento certo subi as escadas, curiosa, presente.

Guiados pelas artistas, sentamos… Ouvimos vozes fortes, olhares intensos e penetrantes, elas se reportavam à nós. Saias rodavam suave e ferozmente em contraluz espalhando a fumaça ao redor. Era vermelha também a luz, branda. Várias cenas umas mais compreensíveis que outras, se desenrolaram em nossa frente e éramos pouco a pouco convidados a mergulhar em lembranças de coisas que não pertenciam a nossa memória mas que ao mesmo tempo era de lá mesmo que haviam saído.

Gestos fortes, corpos em movimento, chão, mãos, pernas, pés. Era como se eu estivesse flutuando em meio ao bailar das andorinhas quando o sol se põe. Me desloquei de qualquer tempo-espaço, estava lá, em suspensão e podia sentir tudo aquilo como um grande carinho, um grande abraço, um aconchego de mãe.

Ao final, fomos chamados para mais perto. E de repente me vi em um ventre. Calmo, macio, líquido, translúcido e vermelho. E elas que nesse momento já pareciam imagens de seres etéreos dentro de um universo onírico e nostálgico, saíram do limbo de saudade em que pareciam estar e abraçaram, um a um dos que estavam presentes. Ao som de cantigas suaves… Sob a leveza dos sorrisos e olhares surpresos ao redor. “Sou de nanã euá euá eaê...” Ecoava... As ondas sonoras me tocaram cada poro... Emoção. Lágrimas… Não me contive. Não fui abraçada e nem notei, pois que houve um abraço maior que me acalentou. Não queria ir embora…. Mas fui… Flutuando procurei pelo caminho de casa e achei, sentindo em meu "útero abissal" ecoar aquela intensa e bela dança infinita.

Maravilha pra mim é encontrar vez ou outra, distraidamente, esses ninhos tão deliciosos de se aconchegar, onde se torna inevitável o descansar. Essas coisas de gente me fascinam, não sei direito pra que serve ser humano, mas sei que já encontramos uns jeitos suaves e bonitos de tocarmos uns aos outros. Me comove muito sentir quão profundo podem ser alguns momentos e o quanto os dias podem nos guardar coisas que carregam o peso da gravidade e da essência desse mistério todo que é existir sendo gente.

* a frase do título faz parte do espetáculo

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

debaixo das camadas de carne, trincheiras...


Há em mim um algoz sanguinário e odioso, de peito petrificado, pequeno e demoníaco, sedento de lágrimas negras, que fere a cada passo que dá. É feio e ingrato, egoísta e mesquinho. Frágil e rancoroso. Insanamente existe ele, a se defender, a atacar. Sua vítima, igualmente, mora em mim, e minha visão fica turva ao tentar enxergá-la, só sei que também existe em alguma dimensão de meu vão interior. Meu oco é então, pano de fundo para as mais sangrentas batalhas. Lutas sem sentido, vazias, dolorosas... Sem entender, sigo sendo perfurada a flechadas, tiros, explosões e muitas implosões. Algo em mim me quer muito mal. E algo em mim foge disso, sob ferozes ataques. Me sinto como um organismo perturbado que por motivos obscuros confunde proteínas com agentes invasores, e as ataca. Uma alma autoimune talvez? Há dias em que acordo e junto de mim despertam esses demônios, não sei como detê-los. E será que há como? Onde a poesia? Onde a sustância de tudo que há? Onde eu fico enquanto duelam em mim algozes mortais? Quem me guarda de mim?  
Não me admira todo esse estrago na humanidade, se na mínima instância da existência, dentro dos liames dos universos particulares, tanto tormento pode ser criado por um único ser...

*não sei de quem é a imagem

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Para que serve a lucidez?

Para que serve a lucidez?

Para assistirmos, imersos em desespero e impotência, aos processos obscuros da história que nos rodeia?
Que diferença faz a consciência crítica, se ela apenas observa, atônita, inerte?
Pra que serve a lucidez, se nossa palavra e sensatez não faz eco nos desvios que os caminhos deveriam fazer?
De que vale a cosmovisão, se ela não volta para o chão para intervir no curso macabro de certos devires?
A que serve tantas pessoas cientes, tantas análises, tantas explicações?
A que serve tantos entendedores de Foucault? Tantos cientistas políticos? Tantas hashtags? Tantos do “lado certo da história”?

Ao que parece, esquecemos que é preciso estar presente para além da voz ou para além do olhar. De que adiantou assistirmos esse quadro tenebroso surgir no horizonte, horrorizados? Que diferença faria assistir a ele, alienados? Que nos falta pra usar nossas forças? Precisamos pular os muros ilusórios criados por eles, esses muros não existem! Perfuremos a casca dura forjada historicamente para isolar-nos daquilo que são nossas próprias rédeas!

Não é mau desejar o bem coletivo, não é mau sair de nossos solitários quadrados claustrofóbicos e vislumbrar o melhor para algo além do espaço vazio que já fora ocupado por nossos cordões umbilicais. 

É preciso perfurar a parede de concreto e crime que nos separa da “política” que aí vigora. Não há política sem a sociedade e uma parte da sociedade sempre será apenas uma parte dela. Nós somos mais. Temos que invadir com raiva e amor no coração as entranhas deste território que nos vem sendo negado. 

Não é a toa que muitos dizem “não estar nem aí” para política. Apenas seguem o script tal qual ele foi escrito. É como não estar nem aí pra sua casa. Uma hora ela vai cair na sua cabeça, e vai ser impossível se mover, tantos entulhos pelo chão não lhe permitirão saber onde ou como pisar, não haverá mais nada limpo, nada o que comer, as paredes ruirão. Não haverá movimento além do acúmulo de deterioração. A tendência é ou morrer, parado e inerte em meio a isso, ou tomar atitudes práticas, pensar no que tirar primeiro, que movimento fazer, onde pisar, para que lado se virar ou ao menos, para onde olhar… E nem que seja nesse momento, vai ter que se estar “aí pra política”, por que é a sua casa! É a sua vida! São nossas cidades! É o nosso planeta! É o seu caminho que está sendo conduzido por quem não se importa com a sua existência. Que sentido faz isso?

Precisamos ocupar esses espaços que são nossos mas que historicamente nos foram usurpados, nunca os ocupamos devidamente, desde a colonização. Precisamos reunir nossas mentes e energias mas também nossos braços e pernas, para construir o que queremos, a construção não se fará sozinha, chega de pensar: Ajamos! Tomemos nossas rédeas! Perfuremos as crostas que fecharam as instituições, as esferas públicas! Sejamos a “luz do sol, que a folha traga e traduz em verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz”, ou sejamos todos soterrados por essas ruínas que há tempos caem em nossas cabeças.

!!!!!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

porções de nada

Falo coisas em minha mente o tempo inteiro. Narro o que vejo, seja de meus olhos pra dentro, seja de meus olhos pra fora. Narro como se escrevesse um livro durante todas as 24 horas dos dias. Como alguém que à espreita é expectador de si mesmo e os acontecimentos que o envolvem. Como se uma dimensão do eu que sou, saísse de mim e me olhasse de fora mesmo que de dentro.

Coleciono buracos. Como um personagem de um filme que vi... Faço buracos nas coisas e me aposso deles, como se aquelas porções de nada fossem minhas e fizessem parte de mim.

Talvez o personagem fale de todo mundo, talvez todo ser humano seja um colecionador de buracos, mas cada um cria um jeito de fazê-los e inventa a disposição na qual eles serão arrumados ou mesmo o espaço e a dimensão que eles ocuparão na sua vida.

Parece possível então que alguém escolha -ou que a vida escolha por esse alguém- se cobrir de buracos. Posso até ver o passar lento do tempo presenciando a criação cuidadosa e invisível de cada porção de vazio. A cada nova manhã o nascimento de um nova marca negativa surgindo devagar no relevo áspero do algo no qual se forma o buraco. Cada lasca de coisa sendo retirada para abrir espaço para o próprio espaço...

Seria um ser/estar que não é e nem está, então? Se alguém se cobre de buracos, se torna um? Um monte de buracos cheios de nada? Um grande buraco, feito de pequenos outros? Um preenchimento vazio. Um vazio que preenche.... Nadas...



quarta-feira, 24 de agosto de 2016


eu vi a violência, e ela tinha olhos fundos...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O - b - r - i - g - a - d - a !

Coisa mais maravilhosa... Viver. Sempre me comovo tanto com tudo... Mas às vezes o universo me toca diferente.  Hoje chorei. Com as pernas latejando, cansaço generalizado... Chorei de tanto amor pelas pessoas que estão ao meu redor. Chorei pelo tanto de vida que é possível produzirmos no desenrolar dos dias. Chorei, que é de choro também minha matéria. Chorei sentindo o quanto quero bem a isso tudo em que minha existência se desencadeia. Chorei e sorri com toda a alma, sentindo quão raro é ser e estar aqui, agora, com tudo isso que se/nos move e é movido ao nosso redor. 

Que raro somos!

Pode ser que sejamos o deus que tanto buscamos. 
Cada vez mais me parece que todas as respostas e todos os motivos são/estão nas pessoas.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

a gua r dar se

(a)guardo-me em mim
como uma caixa dentro d'outra

guardo-me e me obrigo a olhar-me

guardo-me, que é para saber onde me encontro
guardo-me que é de "perder-se" a matéria que me compõe
guardada, encaro as faces de meu avesso
faces que me comprimem, sufocam
faces conhecidas que desconheço

guardada, salvo-me de mim mesma
salva, me vejo presa
peso
eu, presa, pesada, adormeço
aguardo a dor, guardo a morte
amorteço

sábado, 25 de junho de 2016

ventania

Anteontem houve sopros de tempestade na cidade. Depois da destruição, pairaram ares de pureza e claridade. Do ônibus assistia a tudo, narrando mentalmente o tudo que me era presente, porém com verbos no passado. Era um presente tão etéreo que o passado o alcançou no momento mesmo em que sua existência rodava naquele agora. Escreveria aqui todo esse presente que em câmera lenta se derramou para mim, caso eu lembrasse. Esqueci todas as palavras que disse. Daqueles minutos guardei apenas alguns restos de sombras dos filmes de vida que eu vi passar pela janela.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

quarta-feira, 22 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

domingo, 19 de junho de 2016

sábado, 18 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Para lá


Para cima de qualquer lugar, o horizonte é infinito.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

sonhos lúcidos


Ás vezes seres alados me fazem visitas oníricas... Esses dias já foram um beija-flor, um pássaro pequeno de peito amarelo-queimado e asas azuis e um filhote de gavião receoso de levantar voo.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Problema de vista


"Pra quê esses olhos tão grandes?" 
Não sei.

terça-feira, 17 de maio de 2016

voo

Oito em ponto.
Acordo bruscamente.
Devagar e confusa, uma lágrima pouco densa percorre meu rosto.
Coração acelerado.
Estômago vazio.
Suspiro demorado.
Fome.
Emoção.
Fecho os olhos e os abro do avesso. E como se eu fosse céu, um pássaro faminto voa dentro do meu peito, lentamente... Sedento de horizonte, rasga o ar, selvagem e delicadamente. Seus olhos, como espelhos d'água refletindo o firmamento, parecem portais para o infinito. No reflexo, bem se vê, entre as estrelas, uma mulher dança de um jeito belo.
Fecho os olhos e os abro para fora. Abro o peito, carrego na mão uma estrela e voo-me embora.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

particularmente, lua



"Sou diariamente a dor que me passeia
A dor que me anseia ser
Particularmente rua

Sou um sol brilhante
De um dia incandescente
Sou luz calor calante
Bruxa de um chão doente"


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Entre cãibras e espamos



Dormência e taquicardia




*A primeira foto foi tirada pela Aline Antunes

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Não (?)

Não seja professor. Não seja o professor que os alunos gostam. Não crie afeição por seus alunos. Não crie tanta afeição por tudo. Não faça coisas que as pessoas chamem de arte. Não se sinta bem sendo um incômodo -por mais leve que seja- no sistema do qual és parte. Não seja sensível em demasia. Não seja um incômodo para sua família. Não seja o estranho entre os seus amigos de infância. Odeie os detalhes. Não seja observador. Não fique surpreso com tudo que existe. Não filme eventos irrelevantes do cotidiano como pássaros voando ou gatos pretos andando em muros. Não cante alto quando estiver só. Não dance como se ninguém estivesse olhando. Não dance. Não ame a solidão. Não ame esses dias entre fins de dezembros e inícios de janeiros. Não ame. Não tenha vontade de fazer Tai Chi Chuan. Não pare para olhar a lua. Não pare. Não pare para ver o sol -seja indo ou vindo no horizonte. Não tome banho no maior rio do mundo. Odeie o maior rio do mundo. Não deixe a janela aberta. Não pesquise no google sobre os sons de Júpiter e nem de Saturno. Não faça desenhos. Não fale. Não escreva nada. Não minta. Não chore. Não tente resolver. Não tente fingir que é capaz de pinçar apenas o que lhe interessa na vida adulta e sair incólume. Não precise lidar com números. Não chore. Não tente entender. Não tenha dificuldade com definições. Não exista. Não seja. Não queira. Não sinta. Não tente entender.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

visitas

Há um feixe de luz que às 17 horas me visita. Forte, alaranjado, concentrado, certeiro e bonito. Vem de fora, cortante, invade a casa e divide o caminho por onde passo. Pauso. Tento tocar sua etérea materialidade. Ele me toca, me contorna. Sorrio, o transpasso e sigo.

Há uma escuridão que me visita -sempre. Não entra pois que é dentro. Ela preenche todo o ar, assim me abraça confortavelmente... É bela. A admiro. A contorno. Dançamos. Dormimos. Sorrimos, ela me transpassa e fica.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Hoje

...é quando as plantas começam a secar no quintal.
É quando as cores começam a desbotar.
É quando quebram-se as bússolas.
É quando desmantela-se o que já foi - ou pareceu ser- inteiro.
É quando não sei onde pisar mas piso.
É quando respirar não é suficiente.
É quando -ofegante-  não sei, mas vou.          

sábado, 28 de novembro de 2015

sumir

Quem? O quê? Quando? Onde? Hoje. Amanhã. Ontem. Eu? Vida? Vida... Morte. Morte? Morte! Não consigo pensar e aos poucos vou deixando de agir, próximo passo: sumir.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bob e Terry


Sobre a icomunicabilidade humana e coisas esdrúxulas que costumamos chamar de amor.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

17:36 de um dia de novembro

O urubu plana em movimentos espirais sob a luz queimada do sol que quase se põe.
Sozinho. Obscuro. Voante. Leve? De longe ao menos, sim.
Sons do mundo fazem a curva em meu quintal. Me abraçam.
Dias desertos.
Nada.
Ninguém.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

humano, transviado humano



"sinto não sentir, mais que um abismo entre nós..."

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

sobre a distância e suas mentiras


Espinhos no pé.
Galo na testa.
Garganta inflamada.
Dores nas juntas.
Dores, juntas.
Frágeis articulações.

Frágeis entrelaçamentos.

Sopros de vida no estômago.
Olhos de água. Brilhos, reflexos e profundezas...
Marés de coração. Ondas de existência. Sentires líquidos.

Derretências.

Flores da pele, flores da alma, flores das bocas e das mãos.
Eu rio e acabo por me molhar demais. Não sei como secar.
Nado, e acabo por nadar demais.
Mergulho e voo até chocar a cabeça contra um barco.
Até me chocar. Até me encharcar... Me afagas. Me afogo.

Morro.


domingo, 25 de outubro de 2015

calei-doscópio

Na esquina o ranger da placa da malharia, que tremula com o mínimo bater de vento.
Acima da cabeça, à esquerda, a lua.
Nos ouvidos, ondas de um "caleidoscópio sem lógica".
Pego as chaves.
Entro.
Permaneceço.
Calo.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Parabólica




Fonte desconhecida

terça-feira, 20 de outubro de 2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

águas de outubro - cantares líquidos - sopros, sonolências

Vem a onda e bate, espalha, balança e volta.
Constante impermanência, ruído salutar, barulho de água, canção de ninar.
Carinho nos olhos, vibração suave, vento na alma, leveza.
Espaço - tempo sem tensão, descanso, alento, mansidão.
Calmaria. Acalma. Acalmar... Calmario, com alma, calma/rio.
Mente oca. Ondas cerebrais líquidas. Volume baixo na cabeça, volume alto na água.
Fluir... Fruição.

Vem a onda e bate, espalha, balança e volta.
Cí-cli-ca....
Massageia as dores. Desembaraça o que é amargo.
Água santa que nada quer, nada espera, nada olha.
Apenas É, apenas molha, bate, espalha, balança e volta.

De onde vem o sol?
Vem dela, a mesma dona soberana da lua.
A dona de nós. Ela.
Aquela que enxarca, aquela que abraça, aquela que reflete, aquela que dilui.
Aquela que evapora, aquela que congela, aquela que derrete, aquela que flui.
Aquela que pinga, aquela que banha, aquela que rega, aquela que há em nós.
Aquela que tanto me fala sem precisar de uma só voz.
Ela que são muitas e que estão em toda parte.

Elas que dançam, elas que amansam, que carregam os barcos, que suportam os navios.
Elas que lavam, elas que testemunham, e que cantam pra quem sabe ouvir.
Elas que ajudam o universo a soprar seus cânticos afetuosos pra gente dormir.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

desconcentração

Não consigo me concentrar.
Não consigo acordar, levantar e resolver.
Não consigo resolver, não consigo.
Nada.
Aquela hora em que o céu fica azul e rosa... Aquelas horas todas derretidas... Aquelas horas todas. Coração inflamado.
Problema de desnitidez. Desfocolia.
Não me concentro.
Meus gestos mais mínimos, sempre destroem, em maior ou menor proporção, estão sempre destruindo.
Enxergo muito bem coisas que não são ou estão. Enxergo só o que se sente. Sinto demais.
Inflamação na alma. Doses diárias de pequenos vulcões.
Mente saindo do ar de quando em quando, ruídos de comunicação interna.
Câmera lenta.
Montanhas russas na garganta, ventos negros e agudos no rosto, ventos frios. Sopros desconcertantes de vida.
Existência erradia.
Em cada horizonte um nascimento furando a alma. Ao fim do dia, uma morte gritando a vida.
Àguas e sóis se pondo. Àguas e sóis nascentes.
Impermanência constante.
Cortes em um rosto sem boca. Boca que nada diz. Olhos que dizem mais.
Atenção demais, informação demais, não consigo me concentrar.