quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Aquarela




Meu primeiro encontro com ela e já consegui chegar em lugares os quais, sem sucesso, há muito, procurava. Ao menos houve cor e leveza e o que dói doeu um pouco menos. Continuei sentindo quereres sobre estar em outros lugares que não estes aquis que me são possíveis nestes agoras. Mas teve algo de sereno que me acalentou. Bom saber que posso construir lugares assim e que eles estão dentro de mim. Isso de mexer com cores, faz ressoar umas músicas bonitas em mim... Como é maravilhoso poder contar com isso! Ainda são parcas as palavras por aqui, guerreiras no deserto "seguem o seco" e conseguem musculatura para quebrar buracos nas crostas desse num sei quê que tem me abraçado tão forte. Quero logo os amanhãs que esses hojes tem me dado febre demais, calafrios e vertigens demais. 

sábado, 5 de novembro de 2016

Uma prece para o abismo do que não conheço

Quanto tempo alguém é capaz de permanecer sentado sobre as sombras de sua própria solidão? De que matéria são feitos esses dias tão pesados que passam tão l e n t o s como quem nem gostaria de passar? Quantos demônios cabem nessas horas seculares em que tudo cabe mas nada convém? Quantos anos passaram-se hoje? Quantos terão passado até junho do ano vindouro? Quantas eus passarão até lá? Pode dar à luz quem só conhece à sombra? Onde a centelha divina? Onde o eu maior? Onde fui parar que não me encontro? Entrei em coma ontem e não consigo acordar. É escuro e devagar aqui. Ouço ao longe muitas vozes. Gosto da experiência de passar o dia a ouvir o silêncio, de não traçar palavra alguma, de não produzir som nenhum, de só ser e escutar. Há tanto lá fora e eu insisto em entrar. Mais um tanto de hectares inexplorados a descobrir. Sem asas desta vez... Com todas as forças que minha pequenez pode ter, com toda a densidade que a carne do meu coração carrega e todo o sentimento que possa caber em meu útero. Eu te enxergo e te abraço, peso de tudo o que não me é conhecido. Abismo do desconhecido, não sem medo, te digo: vem!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

céu




De Caruaru à Recife

Cactus. Montanhas recortadas. Retalhos de terra e planta. Vários tons de verde e marrom.


Durante o caminho três coisas me chamaram atenção além de todo o resto:

1. Um ser de três cabeças semelhante a um cão, próximo a um peixe e um cavalo marinho, ambos gigantes com pelo menos uns dois metros de altura... Pareciam ser de concreto e ferro. Todos como que guardavam a frente de uma porteira. Uma entrada de um lugar com muro bem colorido. Um lugar no qual preciso entrar um dia. Não vou esquecer.

2. Uma casinha um pouco tombada para o lado, bem ao fundo de um terreno bem comprido e fino quase como um caminho por onde só se passa e não se mora. Acima do portão, bandeirolas de pano com cores variadas tremulavam com o vento e indicavam alguma coisa sobre existir ali uma festividade invisível de todas as tardes.

3. Um barraco quadrado na beira da estrada, feito de ripas e pedaços reaproveitados de lonas com imagens publicitárias. Não parecia ter chão, nem divisões por dentro. Havia pobreza... No meio do que parecia a entrada, pendurado em uma ripa, um boneco colorido que aparentava ser de papel machê envernizado. Sozinho, de braços abertos, ligeiramente inclinado, parecia saudar quem passava pela estrada. Sua expressão não recordo, não sei se cheguei a enxergar. Havia beleza... Sorri sozinha e retribui a saudação. Pessoa que colocou ali o boneco para velar os viajeiros, eu enxergo você. Obrigada por existir.

Parti...  Pela linda estrada... Pelos metrôs lotados de vendedores e sotaques... Pela saudade de alguma coisa que já vivi nessas terras em algum tempo que desconhecço... Feliz por ter podido voltar... Olhando distante pela cidade passando pelas janelas... Pedi: Nordeste me prometa que eu voltarei. De volta só o silêncio recebi como resposta.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

sábado, 15 de outubro de 2016

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

nadalém

De volta aos espasmos... Tenho ouvido muito a músicas tristes. "Que música de igreja é essa menina?" É que se alojou aqui uma fraqueza... Vertigem constante. Desvontade... Preguiça de tudo isso que é vida. Nada é suficiente. Tudo o que não se possui é sempre o que parece mais maravilhoso. Dormências... Concentração no oco que há, no oco que sou. Aí não consigo fingir, só consigo me ligar ao que sinto que é ligado à minha vibração ou à minha ausência de vibração. Tenho tido dificuldade de me traduzir à mim mesma. Não sai um texto que me agrade, nenhum desenho flui, nada é macio, tudo é moroso e pouco nítido. O tempo vai pesando e de repente não há mais nenhuma batida enérgica que possa sair da playlist do celular, tudo é devagar, sem pressa, quase morto, como tem sido o bombar do meu sangue. As palavras saem como uma embalagem de chiclete jogada por alguém displicentemente na rua... Frívolas, secas, solitárias e inúteis.

Entro em mim vestindo um farrapo qualquer. Olho ao redor, não tiro os sapatos, não lavo as mãos, não bebo água, não me banho. Apenas me sento na cadeira confortável da sala de estar, misturo com o café leite em pó. Me embalo como se nada mais além houvesse e pode ser que nada haja mesmo e esse "além" seja mais uma infante invenção humana. 

É a tal da primavera minguante que vez ou outra entre espasmos e dormências me amansa para além do limite saudável da mansidão. Quase paralisada, eu absorta me desconecto, ou me conecto com outras dimensões além do que é palpável no passar dos dias. Não sei... No fundo é um tremor... Um terror... Um medo... No fundo é só o fundo, o piso de areia movediça da alma crescendo... 

Termino o café e permaneço. Nenhum movimento além de toda a loucura do mundo que se move alucinada da porta pra fora. No fundo da xícara, além de meus próprios olhos, o tempo e mais nada.

"Não há nada além
Não há nada além agora aqui
Não há nada agora além daquilo que eu sou

Silêncio e som
Povoam o meu corpo
Era a pedra e eu
(...)
E o nada
Pousando em mim"

...

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Rio, horizonte fluido.

O que mais me marca em viver onde vivo é poder vez ou outra lançar ao longe o olhar e receber em troca um horizonte fluido a me acarinhar e dizer que nem tudo é tão duro assim. 

Se já amo as ruas pela sensação que elas me provocam, (de pertencimento, suspensão, conexão e introspecção ao mesmo tempo) amo-as mais ainda porque algumas me levam até a linha das águas dançantes, onde o limite é ilusão e a distância é permanente. 

Se há um algo para o qual a gravidade me atrai desesperadamente, esse algo é essa cercadura de curvas circunscrita entre a terra e o céu, que de longe se mostra um portal pro infinito, um triz entre o chão e o etéreo e de perto pesa e dança, fazendo ecoar ventos que cantam e fazem dormir monstros residentes nos peitos de quem passa demasiado perto.


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

No útero abissal ecoa tua dança infinita*

“O que é aqui?” assim começou minha experiência com um espaço chamado Espaço Experimental e com o espetáculo “Cara da mãe” do Coletivo Cênico Tenda Vermelha. À deriva pelo centro histórico de Recife, um lugar me chamou atenção. Passei, voltei e indaguei. Pois bem, a resposta foi: “Vai ter um espetáculo, daqui a 20 minutos.” “Ah, que legal! De quê? Dança? Teatro?” “Não tenho certeza, mas acho que os dois...” “Quanto custa?” “20 reais”… “Obrigada”. Fiquei.

Recebemos vendas vermelhas, feitas com um tecido que mais parecia uma tela, não encobria a vista totalmente, deixava apenas sobre o olhar um filtro translucido de cor vermelha… Interessante… Aguardamos o horário na escada, começou a chover lá fora. No momento certo subi as escadas, curiosa, presente.

Guiados pelas artistas, sentamos… Ouvimos vozes fortes, olhares intensos e penetrantes, elas se reportavam à nós. Saias rodavam suave e ferozmente em contraluz espalhando a fumaça ao redor. Era vermelha também a luz, branda. Várias cenas umas mais compreensíveis que outras, se desenrolaram em nossa frente e éramos pouco a pouco convidados a mergulhar em lembranças de coisas que não pertenciam a nossa memória mas que ao mesmo tempo era de lá mesmo que haviam saído.

Gestos fortes, corpos em movimento, chão, mãos, pernas, pés. Era como se eu estivesse flutuando em meio ao bailar das andorinhas quando o sol se põe. Me desloquei de qualquer tempo-espaço, estava lá, em suspensão e podia sentir tudo aquilo como um grande carinho, um grande abraço, um aconchego de mãe.

Ao final, fomos chamados para mais perto. E de repente me vi em um ventre. Calmo, macio, líquido, translúcido e vermelho. E elas que nesse momento já pareciam imagens de seres etéreos dentro de um universo onírico e nostálgico, saíram do limbo de saudade em que pareciam estar e abraçaram, um a um dos que estavam presentes. Ao som de cantigas suaves… Sob a leveza dos sorrisos e olhares surpresos ao redor. “Sou de nanã euá euá eaê...” Ecoava... As ondas sonoras me tocaram cada poro... Emoção. Lágrimas… Não me contive. Não fui abraçada e nem notei, pois que houve um abraço maior que me acalentou. Não queria ir embora…. Mas fui… Flutuando procurei pelo caminho de casa e achei, sentindo em meu "útero abissal" ecoar aquela intensa e bela dança infinita.

Maravilha pra mim é encontrar vez ou outra, distraidamente, esses ninhos tão deliciosos de se aconchegar, onde se torna inevitável o descansar. Essas coisas de gente me fascinam, não sei direito pra que serve ser humano, mas sei que já encontramos uns jeitos suaves e bonitos de tocarmos uns aos outros. Me comove muito sentir quão profundo podem ser alguns momentos e o quanto os dias podem nos guardar coisas que carregam o peso da gravidade e da essência desse mistério todo que é existir sendo gente.

* a frase do título faz parte do espetáculo

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

debaixo das camadas de carne, trincheiras...


Há em mim um algoz sanguinário e odioso, de peito petrificado, pequeno e demoníaco, sedento de lágrimas negras, que fere a cada passo que dá. É feio e ingrato, egoísta e mesquinho. Frágil e rancoroso. Insanamente existe ele, a se defender, a atacar. Sua vítima, igualmente, mora em mim, e minha visão fica turva ao tentar enxergá-la, só sei que também existe em alguma dimensão de meu vão interior. Meu oco é então, pano de fundo para as mais sangrentas batalhas. Lutas sem sentido, vazias, dolorosas... Sem entender, sigo sendo perfurada a flechadas, tiros, explosões e muitas implosões. Algo em mim me quer muito mal. E algo em mim foge disso, sob ferozes ataques. Me sinto como um organismo perturbado que por motivos obscuros confunde proteínas com agentes invasores, e as ataca. Uma alma autoimune talvez? Há dias em que acordo e junto de mim despertam esses demônios, não sei como detê-los. E será que há como? Onde a poesia? Onde a sustância de tudo que há? Onde eu fico enquanto duelam em mim algozes mortais? Quem me guarda de mim?  
Não me admira todo esse estrago na humanidade, se na mínima instância da existência, dentro dos liames dos universos particulares, tanto tormento pode ser criado por um único ser...

*não sei de quem é a imagem

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Para que serve a lucidez?

Para que serve a lucidez?

Para assistirmos, imersos em desespero e impotência, aos processos obscuros da história que nos rodeia?
Que diferença faz a consciência crítica, se ela apenas observa, atônita, inerte?
Pra que serve a lucidez, se nossa palavra e sensatez não faz eco nos desvios que os caminhos deveriam fazer?
De que vale a cosmovisão, se ela não volta para o chão para intervir no curso macabro de certos devires?
A que serve tantas pessoas cientes, tantas análises, tantas explicações?
A que serve tantos entendedores de Foucault? Tantos cientistas políticos? Tantas hashtags? Tantos do “lado certo da história”?

Ao que parece, esquecemos que é preciso estar presente para além da voz ou para além do olhar. De que adiantou assistirmos esse quadro tenebroso surgir no horizonte, horrorizados? Que diferença faria assistir a ele, alienados? Que nos falta pra usar nossas forças? Precisamos pular os muros ilusórios criados por eles, esses muros não existem! Perfuremos a casca dura forjada historicamente para isolar-nos daquilo que são nossas próprias rédeas!

Não é mau desejar o bem coletivo, não é mau sair de nossos solitários quadrados claustrofóbicos e vislumbrar o melhor para algo além do espaço vazio que já fora ocupado por nossos cordões umbilicais. 

É preciso perfurar a parede de concreto e crime que nos separa da “política” que aí vigora. Não há política sem a sociedade e uma parte da sociedade sempre será apenas uma parte dela. Nós somos mais. Temos que invadir com raiva e amor no coração as entranhas deste território que nos vem sendo negado. 

Não é a toa que muitos dizem “não estar nem aí” para política. Apenas seguem o script tal qual ele foi escrito. É como não estar nem aí pra sua casa. Uma hora ela vai cair na sua cabeça, e vai ser impossível se mover, tantos entulhos pelo chão não lhe permitirão saber onde ou como pisar, não haverá mais nada limpo, nada o que comer, as paredes ruirão. Não haverá movimento além do acúmulo de deterioração. A tendência é ou morrer, parado e inerte em meio a isso, ou tomar atitudes práticas, pensar no que tirar primeiro, que movimento fazer, onde pisar, para que lado se virar ou ao menos, para onde olhar… E nem que seja nesse momento, vai ter que se estar “aí pra política”, por que é a sua casa! É a sua vida! São nossas cidades! É o nosso planeta! É o seu caminho que está sendo conduzido por quem não se importa com a sua existência. Que sentido faz isso?

Precisamos ocupar esses espaços que são nossos mas que historicamente nos foram usurpados, nunca os ocupamos devidamente, desde a colonização. Precisamos reunir nossas mentes e energias mas também nossos braços e pernas, para construir o que queremos, a construção não se fará sozinha, chega de pensar: Ajamos! Tomemos nossas rédeas! Perfuremos as crostas que fecharam as instituições, as esferas públicas! Sejamos a “luz do sol, que a folha traga e traduz em verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz”, ou sejamos todos soterrados por essas ruínas que há tempos caem em nossas cabeças.

!!!!!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

porções de nada

Falo coisas em minha mente o tempo inteiro. Narro o que vejo, seja de meus olhos pra dentro, seja de meus olhos pra fora. Narro como se escrevesse um livro durante todas as 24 horas dos dias. Como alguém que à espreita é expectador de si mesmo e os acontecimentos que o envolvem. Como se uma dimensão do eu que sou, saísse de mim e me olhasse de fora mesmo que de dentro.

Coleciono buracos. Como um personagem de um filme que vi... Faço buracos nas coisas e me aposso deles, como se aquelas porções de nada fossem minhas e fizessem parte de mim.

Talvez o personagem fale de todo mundo, talvez todo ser humano seja um colecionador de buracos, mas cada um cria um jeito de fazê-los e inventa a disposição na qual eles serão arrumados ou mesmo o espaço e a dimensão que eles ocuparão na sua vida.

Parece possível então que alguém escolha -ou que a vida escolha por esse alguém- se cobrir de buracos. Posso até ver o passar lento do tempo presenciando a criação cuidadosa e invisível de cada porção de vazio. A cada nova manhã o nascimento de um nova marca negativa surgindo devagar no relevo áspero do algo no qual se forma o buraco. Cada lasca de coisa sendo retirada para abrir espaço para o próprio espaço...

Seria um ser/estar que não é e nem está, então? Se alguém se cobre de buracos, se torna um? Um monte de buracos cheios de nada? Um grande buraco, feito de pequenos outros? Um preenchimento vazio. Um vazio que preenche.... Nadas...



quarta-feira, 24 de agosto de 2016


eu vi a violência, e ela tinha olhos fundos...

sexta-feira, 8 de julho de 2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O - b - r - i - g - a - d - a !

Coisa mais maravilhosa... Viver. Sempre me comovo tanto com tudo... Mas às vezes o universo me toca diferente.  Hoje chorei. Com as pernas latejando, cansaço generalizado... Chorei de tanto amor pelas pessoas que estão ao meu redor. Chorei pelo tanto de vida que é possível produzirmos no desenrolar dos dias. Chorei, que é de choro também minha matéria. Chorei sentindo o quanto quero bem a isso tudo em que minha existência se desencadeia. Chorei e sorri com toda a alma, sentindo quão raro é ser e estar aqui, agora, com tudo isso que se/nos move e é movido ao nosso redor. 

Que raro somos!

Pode ser que sejamos o deus que tanto buscamos. 
Cada vez mais me parece que todas as respostas e todos os motivos são/estão nas pessoas.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

a gua r dar se

(a)guardo-me em mim
como uma caixa dentro d'outra

guardo-me e me obrigo a olhar-me

guardo-me, que é para saber onde me encontro
guardo-me que é de "perder-se" a matéria que me compõe
guardada, encaro as faces de meu avesso
faces que me comprimem, sufocam
faces conhecidas que desconheço

guardada, salvo-me de mim mesma
salva, me vejo presa
peso
eu, presa, pesada, adormeço
aguardo a dor, guardo a morte
amorteço

sábado, 25 de junho de 2016

ventania

Anteontem houve sopros de tempestade na cidade. Depois da destruição, pairaram ares de pureza e claridade. Do ônibus assistia a tudo, narrando mentalmente o tudo que me era presente, porém com verbos no passado. Era um presente tão etéreo que o passado o alcançou no momento mesmo em que sua existência rodava naquele agora. Escreveria aqui todo esse presente que em câmera lenta se derramou para mim, caso eu lembrasse. Esqueci todas as palavras que disse. Daqueles minutos guardei apenas alguns restos de sombras dos filmes de vida que eu vi passar pela janela.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

quarta-feira, 22 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

domingo, 19 de junho de 2016

sábado, 18 de junho de 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Para lá


Para cima de qualquer lugar, o horizonte é infinito.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

sonhos lúcidos


Ás vezes seres alados me fazem visitas oníricas... Esses dias já foram um beija-flor, um pássaro pequeno de peito amarelo-queimado e asas azuis e um filhote de gavião receoso de levantar voo.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Problema de vista


"Pra quê esses olhos tão grandes?" 
Não sei.

terça-feira, 17 de maio de 2016

voo

Oito em ponto.
Acordo bruscamente.
Devagar e confusa, uma lágrima pouco densa percorre meu rosto.
Coração acelerado.
Estômago vazio.
Suspiro demorado.
Fome.
Emoção.
Fecho os olhos e os abro do avesso. E como se eu fosse céu, um pássaro faminto voa dentro do meu peito, lentamente... Sedento de horizonte, rasga o ar, selvagem e delicadamente. Seus olhos, como espelhos d'água refletindo o firmamento, parecem portais para o infinito. No reflexo, bem se vê, entre as estrelas, uma mulher dança de um jeito belo.
Fecho os olhos e os abro para fora. Abro o peito, carrego na mão uma estrela e voo-me embora.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

particularmente, lua



"Sou diariamente a dor que me passeia
A dor que me anseia ser
Particularmente rua

Sou um sol brilhante
De um dia incandescente
Sou luz calor calante
Bruxa de um chão doente"


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Entre cãibras e espamos



Dormência e taquicardia




*A primeira foto foi tirada pela Aline Antunes

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Não (?)

Não seja professor. Não seja o professor que os alunos gostam. Não crie afeição por seus alunos. Não crie tanta afeição por tudo. Não faça coisas que as pessoas chamem de arte. Não se sinta bem sendo um incômodo -por mais leve que seja- no sistema do qual és parte. Não seja sensível em demasia. Não seja um incômodo para sua família. Não seja o estranho entre os seus amigos de infância. Odeie os detalhes. Não seja observador. Não fique surpreso com tudo que existe. Não filme eventos irrelevantes do cotidiano como pássaros voando ou gatos pretos andando em muros. Não cante alto quando estiver só. Não dance como se ninguém estivesse olhando. Não dance. Não ame a solidão. Não ame esses dias entre fins de dezembros e inícios de janeiros. Não ame. Não tenha vontade de fazer Tai Chi Chuan. Não pare para olhar a lua. Não pare. Não pare para ver o sol -seja indo ou vindo no horizonte. Não tome banho no maior rio do mundo. Odeie o maior rio do mundo. Não deixe a janela aberta. Não pesquise no google sobre os sons de Júpiter e nem de Saturno. Não faça desenhos. Não fale. Não escreva nada. Não minta. Não chore. Não tente resolver. Não tente fingir que é capaz de pinçar apenas o que lhe interessa na vida adulta e sair incólume. Não precise lidar com números. Não chore. Não tente entender. Não tenha dificuldade com definições. Não exista. Não seja. Não queira. Não sinta. Não tente entender.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

visitas

Há um feixe de luz que às 17 horas me visita. Forte, alaranjado, concentrado, certeiro e bonito. Vem de fora, cortante, invade a casa e divide o caminho por onde passo. Pauso. Tento tocar sua etérea materialidade. Ele me toca, me contorna. Sorrio, o transpasso e sigo.

Há uma escuridão que me visita -sempre. Não entra pois que é dentro. Ela preenche todo o ar, assim me abraça confortavelmente... É bela. A admiro. A contorno. Dançamos. Dormimos. Sorrimos, ela me transpassa e fica.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Hoje

...é quando as plantas começam a secar no quintal.
É quando as cores começam a desbotar.
É quando quebram-se as bússolas.
É quando desmantela-se o que já foi - ou pareceu ser- inteiro.
É quando não sei onde pisar mas piso.
É quando respirar não é suficiente.
É quando -ofegante-  não sei, mas vou.          

sábado, 28 de novembro de 2015

sumir

Quem? O quê? Quando? Onde? Hoje. Amanhã. Ontem. Eu? Vida? Vida... Morte. Morte? Morte! Não consigo pensar e aos poucos vou deixando de agir, próximo passo: sumir.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bob e Terry


Sobre a icomunicabilidade humana e coisas esdrúxulas que costumamos chamar de amor.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

17:36 de um dia de novembro

O urubu plana em movimentos espirais sob a luz queimada do sol que quase se põe.
Sozinho. Obscuro. Voante. Leve? De longe ao menos, sim.
Sons do mundo fazem a curva em meu quintal. Me abraçam.
Dias desertos.
Nada.
Ninguém.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

humano, transviado humano



"sinto não sentir, mais que um abismo entre nós..."

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

sobre a distância e suas mentiras


Espinhos no pé.
Galo na testa.
Garganta inflamada.
Dores nas juntas.
Dores, juntas.
Frágeis articulações.

Frágeis entrelaçamentos.

Sopros de vida no estômago.
Olhos de água. Brilhos, reflexos e profundezas...
Marés de coração. Ondas de existência. Sentires líquidos.

Derretências.

Flores da pele, flores da alma, flores das bocas e das mãos.
Eu rio e acabo por me molhar demais. Não sei como secar.
Nado, e acabo por nadar demais.
Mergulho e voo até chocar a cabeça contra um barco.
Até me chocar. Até me encharcar... Me afagas. Me afogo.

Morro.


domingo, 25 de outubro de 2015

calei-doscópio

Na esquina o ranger da placa da malharia, que tremula com o mínimo bater de vento.
Acima da cabeça, à esquerda, a lua.
Nos ouvidos, ondas de um "caleidoscópio sem lógica".
Pego as chaves.
Entro.
Permaneceço.
Calo.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Parabólica




Fonte desconhecida

terça-feira, 20 de outubro de 2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

águas de outubro - cantares líquidos - sopros, sonolências

Vem a onda e bate, espalha, balança e volta.
Constante impermanência, ruído salutar, barulho de água, canção de ninar.
Carinho nos olhos, vibração suave, vento na alma, leveza.
Espaço - tempo sem tensão, descanso, alento, mansidão.
Calmaria. Acalma. Acalmar... Calmario, com alma, calma/rio.
Mente oca. Ondas cerebrais líquidas. Volume baixo na cabeça, volume alto na água.
Fluir... Fruição.

Vem a onda e bate, espalha, balança e volta.
Cí-cli-ca....
Massageia as dores. Desembaraça o que é amargo.
Água santa que nada quer, nada espera, nada olha.
Apenas É, apenas molha, bate, espalha, balança e volta.

De onde vem o sol?
Vem dela, a mesma dona soberana da lua.
A dona de nós. Ela.
Aquela que enxarca, aquela que abraça, aquela que reflete, aquela que dilui.
Aquela que evapora, aquela que congela, aquela que derrete, aquela que flui.
Aquela que pinga, aquela que banha, aquela que rega, aquela que há em nós.
Aquela que tanto me fala sem precisar de uma só voz.
Ela que são muitas e que estão em toda parte.

Elas que dançam, elas que amansam, que carregam os barcos, que suportam os navios.
Elas que lavam, elas que testemunham, e que cantam pra quem sabe ouvir.
Elas que ajudam o universo a soprar seus cânticos afetuosos pra gente dormir.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

desconcentração

Não consigo me concentrar.
Não consigo acordar, levantar e resolver.
Não consigo resolver, não consigo.
Nada.
Aquela hora em que o céu fica azul e rosa... Aquelas horas todas derretidas... Aquelas horas todas. Coração inflamado.
Problema de desnitidez. Desfocolia.
Não me concentro.
Meus gestos mais mínimos, sempre destroem, em maior ou menor proporção, estão sempre destruindo.
Enxergo muito bem coisas que não são ou estão. Enxergo só o que se sente. Sinto demais.
Inflamação na alma. Doses diárias de pequenos vulcões.
Mente saindo do ar de quando em quando, ruídos de comunicação interna.
Câmera lenta.
Montanhas russas na garganta, ventos negros e agudos no rosto, ventos frios. Sopros desconcertantes de vida.
Existência erradia.
Em cada horizonte um nascimento furando a alma. Ao fim do dia, uma morte gritando a vida.
Àguas e sóis se pondo. Àguas e sóis nascentes.
Impermanência constante.
Cortes em um rosto sem boca. Boca que nada diz. Olhos que dizem mais.
Atenção demais, informação demais, não consigo me concentrar.

DROP THE GAME - Flume & Chet Faker


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Impotência, in potência






Ontem enxerguei num par de olhos, num coração e numa voz, um desespero tão meu... Vi em seguida no jornal um desespero que já havia tido em mim. Assisti, por fim, na rua, ao sair de casa, mais um desespero semelhante. Pensamentos sobre impotência começaram a volitar ao meu redor.... Impotência... Impotente...

Impotência é não poder fazer nada diante de algo? E poder fazer? É potência?
O que somos então durante todo o tempo que não nos desespera e não nos arranca o "poder fazer"?


sexta-feira, 31 de julho de 2015

distrações



Eu entendo os inábeis. Entendo os inertes. Ás vezes a gravidade da Terra pesa demais... E ela se soma aos campos gravitacionais que cada ser possui. Muitas energias. Confluências. Pulsões.
Sofro de um certo mal de ter necessidade de acreditar que sofro de algum mal. Às vezes parece que todos sofrem disso. Mas "todos" é uma palavra muito pequena para que nela caibam os sete bilhões de humanos desse planeta flutuante.

Flutuante... É a minha natureza. Mudança... Há uma ânsia imensa por mudar. O mundo é tão complexo, e eu aqui me apoiando em esteios com os quais pretendo a "desconstrução", a "transgressão", a "subversão"... Muitas coisas. Que diabos elas realmente são? Corações, desejos, missões. Cria-se tanta expectativa. Gera-se tanta frustração. Até onde se pode afinal? O que significa realizar?

Outro dia, em meio ao paraíso me veio o lampejo: "será que a dureza do deserto torna o oásis irreal?" Será? Até onde me levará essa busca obcecada por oásis diante das secas verdades do deserto? Que tanta vontade é essa de engolir as exceções e delas se alimentar ? Que tanta distração... No que isso me torna(rá)?

Se bem que para algo ser considerado distração há de se levar em conta um outro algo mais importante que mereça a atração maior, que seja o merecedor das atenções todas... E quem pode decidir que algos são esses? Se eu puder escolher o que merece atenção, se eu puder determinar isso, serão mesmo distrações todos esses meus passos? 




 ♫♪♫...

quarta-feira, 24 de junho de 2015

terça-feira, 16 de junho de 2015

Lambada de serpente


"Danse Serpentine", coreografia da dançarina moderna francesa Loïe Fuller, eternizada em um pequeno filme colorido à mão, realizado pelos irmãos Lumière.


*Versão com trilha sonora de Sigur Rós, Se Lest.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

onde as coisas selvagens existem


''...Eu sou um Rei que não tem fim

E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tem amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
e nunca chego a ti"



segunda-feira, 1 de junho de 2015

BLOCO NA RUA - Sérgio Sampaio

''Há quem diga...''
 
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terça-feira, 5 de maio de 2015

delicadeza





 
 






Já havia estado com um filhote de passarinho em suas mãos, já o havia alimentado e passado os dedos por sua pele fina sentindo seus ossinhos que de tão fracos deram a ela medo e consciência de seu peso e dimensão. Quão ínfima era aquela matéria, ainda que imbuída de vida, apenas um conjunto pouco denso de carne que facilmente morreria num simples fechar frio e demorado de mão. Em outro momento usando os dedos dos pés para acarinhar seu cachorrinho -uma raça pequena, leve e carente- esbarrou na mesma fragilidade, havia tanta delicadeza naquele pequeno corpo, tanta que um pisão forte ou um peso a mais nos seus pés pressionando aquelas costelas seriam capaz de ceifar também aquela vida.

Sentiu pena daquele ser e da sua ingenuidade. Lembrou do passarinho e também teve pena dele. Eis que alguns sopros de pensamento começaram a lhe rondar perguntando: “Que animais será que ao nos ter em mãos sentem também pena da nossa fragilidade humana? Que animal “gigante” me pode ter a tutela e me tocar cuidadosamente as vértebras, com medo, com horror, ou pena, por tamanha delicadeza? Que bichos são esses que não nos matam por não querer mas qualquer uso de seu potencial total de força extinguiria o que nos mantêm vivos?” Se imaginou sendo cuidada por um elefante, uma baleia, uma árvore antiga.. Teve pena de si mesma.
 

domingo, 12 de abril de 2015

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Eu. Aqui. Agora.

Tem uma agonia, uma inquietação, um peso que me acomete de vez em quando - principalmente nos dias em que menstruo.- Não sei se acontece com todas as pessoas (que têm útero, claro), mas é muito estranho existir nesses dias... Ou, nesses dias entendo mais bruscamente quão estranho é existir... Cada ser. Cada cor. Cada corpo. Cada voo. Cada andar... Delicadas perturbações que me esmagam a alma. Me esmagam e ao mesmo tempo me fazem chegar em terrenos esquecidos/adormecidos dentro de mim.

Eu existo, tudo existe. Há vida. Há morte. Não é tudo sobre mim, mas tudo existe por que eu existo, afinal cada um é criador de seu próprio "tudo". Quando chegam esses agoras, me sinto menor/maior. Explodo, gozo, choro. Êxtase... Uma espécie de espasmo - só que duradouro- de lucidez.... Me sinto conectada. Me sinto bem, me sinto mal. Me sinto. Universo, uníssono, um, uma. Eu. Aqui. Agora. Pequena mente, pequeno coração, pulsação... De cá chora meu espírito um cântico de amor e dor, uma prece por todas as vidas que escorrem esquartejadas pelas ruas, pelas matas, pelas pontes, pelos mundos. Toda essa gente que vive tanto, que morre aos prantos, que não entende, que esbraveja, que quer amor, que odeia, que fere, vive, dói e arde.

Eu, gente, hoje: existo. Ontem: existi. Amanhã: não sei. Ontem morri, hoje morro, amanhã também. Abençoados sejamos todos nós, que existimos e desconhecemos o universo. Que somos/estamos e disso mesmo padecemos. Abençoados sejamos, seja lá pelo que for.

terça-feira, 7 de abril de 2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Devaneios madrugados


Tenho lembrado de meus sonhos noturnos. 
Talvez a calma, talvez a alma...
Algo sossegou, algo é agora sereno. Amanheceu será?
Creio que não... Madrugou, apenas.
Essa tranquilidade é de sono e preguiça de acordar (?).
Tranquilidade de fuga, de não querer ver (?).
Que seja, ao menos, que seguir nessa estrada pedregosa não é assim fácil.
Passar voando alto às vezes calha.

Até que chegam outros dias, outras tardes, outras noites, outros outros...
Chegam novas madrugadas, novos madrugares, novas coisas velhas, mente que não cessa, questionamentos intermináveis, dores nas costas, inércia, espasmos, cãibras.
Coração erradio, buracos negros, meia-noites e quintessências, seres e sentires em expansão.
Quasares "pulsando lôa"s. Eu, pequena-grande, infinitesimalmente infinita.

Flashbacks de momentos vindouros pingando a todo momento na bica da alma.
Flashbacks de futuros vividos fazendo lodo nos becos do coração.
E o que de fato já passou, insiste em passar pra sempre, insiste no infinitivo, insiste em me visitar. Insiste, insiste...

Amanheço aqui dentro e acordo da falsa sensação de sossego.
Nada passou, tudo está aqui. Tudo vem e vai.
"Tudo" é uma coisa que pesa e cansa.
"Tudo passa." Sim, tudo passa, passa mas não vai embora, passa por mim a toda hora.
Passa e me arranca o que é sereno, passa e me tortura os olhos de dentro.

Sim, "tudo passa", passa mesmo, até demais, não para de passar e quando passa, me leva junto.

terça-feira, 3 de março de 2015

Sonhos intranquilos...


Carla Antunes - sonhos intraquilos



...um dia desperto.